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ACREDITE, CAFÉ FAZ BEM

Veículo: Correio Popular

Seção: Revista Metrópole

Data: 21/9/2008



Pode tomar café sem culpa. A bebida que já foi encarada como vilã, hoje é vista como uma grande amiga da memória, da juventude e da prevenção a doenças. Segundo a médica Adriana Farah, pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ao contrário do que se acredita, o café é grande aliado da saúde. Antiviral, antioxidante, antibacteriano, antidiabetes, hepatoprotetor, hipotensor, melhora a atenção, previne câncer de colo e hepático, é preventivo das doenças do coração e, mais recentemente, mostrou-se um possível combatente do mal de Alzheimer.

Ainda há muito a se estudar, mas já se sabe que o café é altamente benéfico à saúde”, diz a médica. Café e Saúde foi um dos temas principais da 22ª Conferência Internacional de Ciência do Café, realizada na semana passada, em Campinas, com representantes de 36 países de todos os continentes e 450 participantes. Segundo Adriana, o café é três vezes mais antioxidante que o chá. “Principalmente o de torra clara.”

“Cafeína não faz mal, é claro que em doses moderadas”, diz. Adriana considera “moderada” a média de três a quatro xícaras diárias de café. A medida, afirma, varia de acordo com a absorção de uma pessoa para outra e com a composição de cada xícara. Mas a médica adverte: “Não se deve tomar tudo isso de uma só vez.”

As tendências e o consumo também fizeram parte dos debates, que incluiu toda a cadeia do café, desde a produção agrícola até as pesquisas científicas, o desenvolvimento industrial e o consumo. O Brasil se destaca em quase todos os elos da cadeia. Junto com a Colômbia, lidera a produção mundial. É também o maior exportador mundial de grãos. Tem reconhecimento internacional em pesquisas, entre as quais as mais importantes foram desenvolvidas no Instituto Agronômico de Campinas (IAC). E há uma média anual de crescimento de consumo duas vezes maior que a média mundial.

Enquanto no mundo bebe-se 2% mais café a cada ano, a taxa de aumento do consumo no Brasil varia de 4,5 a 5%. São 4,57 quilos de pó de café per capita/ano ou o equivalente a 75 litros de café por ano por pessoa. A média dos brasileiros é quase a mesma dos franceses, dos americanos e dos italianos. Na Finlândia, Noruega e nos países nórdicos o consumo por pessoa chega a ser duas vezes maior.

Brasileiro gosta de tomar café e toma cada vez mais”, afirma Nathan Herszkowicz, diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic). Segundo pesquisa realizada entre pessoas acima de 15 anos, nove entre dez brasileiros consomem café diariamente. “O café é a segunda bebida mais consumida, depois da água. A bebida está em todos os lares brasileiros.”

Desde 2000, o mercado oferece cafés gourmets, que se diferenciam pela qualidade. “A proliferação das casas de café mostra que o consumo fora do lar também cresce.” Herszkowicz atribui o sucesso ao baixo percentual de reajuste. Desde o Plano Real, a bebida teve alta de 34% no seu valor, enquanto a cesta básica chegou a subir 230%. “Por isso não pesa no bolso do brasileiro e os gourmets têm uma aceitação mais tranqüila.”

A cidade de São Paulo é uma das que mais consomem café no mundo, diz o diretor da Abic. Diariamente, são 24 milhões de xícaras de café, segundo levantamento realizado entre 2005 e 2006, com crescimento anual de 20% a 30% ao ano em cafeterias.

“O consumidor tem evoluído no conhecimento do café e na exigência, graças às novas alternativas de consumo”, afirma Nestor Osório, diretor da International Coffee Organization (IOC). “Está acontecendo o mesmo que houve com o vinho, que antes era identificado só por branco ou tinto, depois passou a ser selecionado por país e aos poucos foi ganhando mais variantes. No caso do café ocorre o mesmo: o consumidor está mais sofisticado.”

‘Não pode haver preconceito’

Depois de se formar em Educação Física e trabalhar por 12 anos como personnal trainner, em Itatiba, Rodrigo Gava (foto) desistiu de tudo para se tornar barista profissional. Além de profissão, o ofício hoje é sua paixão. Gava prepara cafés em eventos, faz seu ritual em casa para consumo próprio e também inclui a bebida nos programas sociais entre amigos. Até no universo virtual, ele mantém sua ligação com o café, pelo blog Mesa de Café (mesacafe.blogspot.com).

Dica para ser um bom barista? “Tem de se dedicar às minúcias de cada etapa, sem ser displicente, desde a moagem até o aquecimento da xícara.” Ao contrário do que se ouve muito hoje – nesse momento em que ser barista confere uma certa elegância –, Gava defende que não é preciso, obrigatoriamente, fazer um curso para ser barista. “O aprendizado é permanente.” O curso pode ajudar ou impulsionar, mas a busca pessoal por informações e o treinamento prático é que fazem a diferença.

Para quem deseja apenas apreciar e ser um bom bebedor de café, Gava ensina: “Não pode haver preconceito com nenhum tipo de café.” Além disso, afirma, é preciso aprender a desenvolver a atenção a cada gole, à aparência da bebida, ao cheiro e ao sabor”.

Durante o evento internacional realizado em Campinas, Gava trabalhou como barista no estande do Café Canecão, que detém 80% do mercado na região de Campinas.

COFFEE BREAK

Tendência

Em longo prazo, o café será mais claro, em função de haver menos torra. No passado, era comum torrar mais intensamente para esconder os defeitos e as sujeiras do café. Com o aumento do controle e da qualidade do pó, a tendência é diminuir o tempo de torra e deixar o café mais claro, o que representa aumento na qualidade da bebida.

Em estudo

Atualmente há pesquisas sobre a extração de compostos do café para uso em drogas que combatem o vírus HIV. A ação antiviral do café atua sobre as enzimas que fazem a replicação do vírus.

Economia

O comércio internacional do café sente hoje a baixa cotação do dólar e a alta do petróleo. Mas a forte dinâmica do consumo interno no Brasil garante boas perspectivas de mais crescimento. Em todo o mundo, são produzidas 127 milhões de sacas anuais de café.

Normatização

Até o final do ano, o Governo Federal vai criar uma norma técnica de qualidade mínima para o café torrado e moído, que vale como uma nota de qualidade, avaliada metodologicamente. Hoje, a qualificação já é crescente. Cerca de 25% das marcas certificadas pela Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic) são de cafés gourmets.

Cenas inspiradoras

O pintor Cândido Portinari retratou em sua obra a produção de café em telas internacionalmente conhecidas como Lavrador de Café (1934), Café (1935), Peneirando Café (1957) e Colheita de Café (1960). O artista era filho de imigrantes italianos que contribuíram para a expansão da cultura cafeeira em São Paulo.





Adriano Oliveira
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